DESCRIÇÃO CRONOLÓGICA DO EPISÓDIO MUCKER

Adilson Schultz*

 

25 junho 1824: chegada ao Brasil do primeiro grupo de imigrantes alemães.
25 julho 1824: chegada dos primeiros 120 imigrantes alemães a São Leopoldo-RS.
06 novembro 1824: chegada em São Leopoldo (hoje Hamburgo Velho) de Libório Mentz e Madalena Ernestina Lips, avô e avó de Jacobina, naturais de Tambach, na Turíngia (A família emigra após intenso período de perseguições por ter se desligado da Igreja Evangélica e da escola, e criado, junto com mais 6 ou7 famílias, uma comunidade de culto independente).
18 fevereiro 1829: chegada ao RS (São José do Hortênsio) de João Frederico Carlos Maurer, pai de João Jorge Maurer (Na mesma data chegam também as famílias Fuchs, Nöe e Voltz, integrantes do posterior movimento Mucker, todas procedentes do Sarre, Hünsruck-Alemanha).
1832: Libório Mentz (Filho), tio de Jacobina (o Libório avô falecera em 1826) constrói a 1a capela Evangélica em São Leopoldo, a Igreja da Piedade, em Hamburgo Velho.
28 de fevereiro de 1840(1?): nascimento de João Jorge Maurer, em São José do Hortênsio
Junho de 1841(2?): nascimento de Jacobina Mentz Maurer, em Hamburgo Velho, filha de André Mentz e Maria Elisabeth Müller.
1850: chegada a São Leopoldo do Jesuítas (mais intensamente a partir de 1871).
1852: chegada ao RS dos Brummer, coluna de oficiais alemães que integrariam as forças militares no combate ao General Rosas, da Argentina, e posteriormente ocupariam postos de grande influência nas colônias. Do grupo fazia parte Karl von Koseritz, futuro jornalista, divulgador de um discurso germanista que ostentava a nação alemã, da Maçonaria, do positivismo e darwinismo. Tornar-se-ia ferrenho crítico e o principal porta-voz dos adversários dos Mucker.
4 abril 1854: rito de Confirmação de Jacobina na Igreja Evangélica Piedade, em Hamburgo Velho.
1850: falecimento do pai de Jacobina, quando esta tinha 9 anos de idade.
1853: 1a crise de desmaio de Jacobina, aos 12 anos de idade.
1864: Chegada a São Leopoldo de Wilhelm Borchard, organizador do 1o Sínodo Evangélico Luterano.
1864: fundação em Porto Alegre do jornal Deutsche Zeitung, posteriormente importante porta-voz do episódio Mucker, onde atuava Karl von Koseritz.
26 abril 1866: casamento de Jacobina Mentz e João Jorge Maurer, em Hamburgo Velho.
2. semestre 1866: o casal Maurer muda-se de Hamburgo Velho para o Ferrabrás.
19 maio 1867: Nascimento de Jacob, 1a criança do casal Maurer (no desfecho do episódio Mucker, Jacob tinha 7 anos de idade, e foi entregue para adoção. Presume-se ter sido identificado em 1920, em Uruguaiana, como eficiente carpinteiro e pregador da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Está sepultado em Palmeira das Missões).
1867: Logo após o parto de Jacob, Jacobina sofre fortes e repetidas crises de desmaio. Dr. Hillebrand, médico de São Leopoldo, diagnostica "efeitos do sonambulismo."
12 agosto 1868: Nascimento de Henrique, 2a criança do casal Maurer.
Final 1868: enquanto trabalhava na roça, João Maurer tem uma visão divina, que lhe ordena abandonar a lavoura e ser médico. Logo depois, encontra o curandeiro Buchhorn, que lhe ensina os segredos das ervas medicinais.
11 agosto 1869: Nascimento de Francisco Carlos, 3a criança do casal Maurer.
25 dezembro 1870: Nascimento de Matilde, 4a criança do casal Maurer.
1870: início (?) das reuniões de leitura bíblica ao redor de Jacobina.
1871: dissemina-se amplamente no RS um livro que associa o sonambulismo à vidência e a poderes especiais.
1871: ano da grande unificação político-territorial da Alemanha, sob Bismark. No Brasil, os pastores, os Brummer e os jornalistas alemães intensificam o discurso germanista.
Final 1871: cresce o número de pessoas que visitam os Maurer, e os colonos começam a virar notícia.
9 Abril 1872: Nascimento de Aurélia, 5a criança do casal Maurer (tendo pouco mais de 2 anos quando do desfecho do episódio Mucker, Aurélia ressurgiria vinte e três anos depois, sendo referida como herdeira dos dons espirituais da mãe. Estava casada com Miguel Nöe, filho de um colono Mucker que conseguira escapar do massacre final.)
1973
24 fevereiro: carta de Jacobina ao Irmão Francisco Mentz, o único a não integrar o movimento. O discurso de Jacobina opõe a herança celeste que os Mucker têm para oferecer ao tumulto do mundo em que vive Francisco.
Abril-maio: 14 dias de grande movimentação no Ferrabrás, com várias celebrações religiosas.
4 de maio: o grande culto na casa dos Maurer, no dia da Ascensão, onde Jacobina teria se anunciado ou sido vista como o Cristo, tendo feito majestosa aparição com vestes brancas e coroa de flores na cabeça. Mais de 100, 200 ou até 500 pessoas teriam participado do culto.
10 maio: sob liderança do pastor Frederico Boeber, de Sapiranga, é remetido abaixo-assinado ao delegado de São Leopoldo solicitando imediata intervenção policial contra os Mucker. Subscrito por 44 colonos da região, o texto acusa os Mucker: Jacobina nomeara seus irmãos e esposo discípulos; os colonos anunciavam que ela era manifestação de Deus; eles não pagavam mais as taxas da Igreja e escola; eles estavam estocando armas; o movimento estava dividindo casais e famílias.
Abril-maio: por ordem de Jacobina, os Mucker deixam de ir à Igreja e à escola. As instituições não estariam ensinando mais o verdadeiro evangelho.
20 (21?) de maio: prisão de João Maurer.
22 maio: mandato de busca e apreensão na casa dos Maurer. Das supostas armas, uma garrucha é encontrada. No quarto de Jacobina, violado enquanto ela dormia, estão pendurados na parede uma imagem de Jesus, ladeado por uma foto do Pastor Borchard, e por Inácio de Loyola, fundador da "Ordem de Jesus".
22 de maio: Jacobina é presa. Em estado de letargia, é conduzida em uma carreta até São Leopoldo, escoltada por oito soldados, numa viagem de 9 horas de duração. Em São Leopoldo, é exposta ao público e insultada. Para despertá-la, os médicos usam picadas de agulha e de ponta de faca. No entanto, apenas o canto dos fiéis, que a tinham acompanhado, consegue despertá-la, após 5 horas de tentativas.
23 maio: Jacobina responde a interrogatório do chefe de polícia, onde nega todas as acusações contra os colonos, e diz não se lembrar do que fala quando está em êxtase. Reconhece que as curas de João e as suas visões e pregações são inspiradas por Deus.
24 maio: Jacobina é conduzida a Porto Alegre e internada na Santa Casa de Misericórdia. Aí permaneceria por 3 semanas.
1 de junho: Dia de Pentecostes, para o qual Jacobina tinha prometido grandes revelações. Mesmo estando Jacobina e João ausentes/presos, os colonos promovem intensa peregrinação ao Ferrabrás.
13 junho: Libertação de Jacobina e João, sendo constatado que ela não portava nenhuma enfermidade, e ambos nenhum crime.
05 julho: Jacobina e João são convocados a comparecer novamente em São Leopoldo. Assinam "termo de bem viver" proibindo os cultos. Na volta ao Ferrabrás, são recebidos como heróis.
junho: os colonos Mucker passam a não mais sepultar mortos nos cemitério. Em torno desta data abandonam também festas do salão comunitário, jogos e bailes.
22 novembro: o inspetor de quarteirão João Lehn, declarado opositor dos colonos Mucker, é baleado por dois homens, presumivelmente Mucker.
novembro: alguns (32?) colonos são presos acusados do atentado a João Lehn. Por falta de provas, seriam libertados em 1 de dezembro.
10 dezembro: viagem de João Maurer (?) e mais dois colonos Mucker ao RJ, para entrega de petição ao imperador D. Pedro II. 32 colonos subscreveram a petição, queixando-se de perseguição da polícia, ofensas morais e agressões físicas e patrimoniais de outros colonos.
Durante a viagem, Rodofo Sehn, católico, aproxima-se de Jacobina, passando a ter importante papel enquanto receptáculo de suas mensagens e visões.
27 dezembro: carta de Carolina, irmã de Jacobina ao primo Lúcio Schreiner, delegado de São Leopoldo, criticando-o pela perseguição e pedindo pelo paradeiro do esposo.
27 de dezembro: representante imperial solicita explicações às autoridades da província do RS a respeito das queixas que os colonos Mucker fazem em petição entregue ao imperador.
Dezembro: Karl von Koseritz sugere, através da imprensa, a deportação dos Mucker para uma ilha oceânica. Vários colonos estariam dispostos a colaborar no custeio do projeto.
1974:
28 de janeiro: Lúcio Schreiner responde às autoridades imperiais desmentindo as queixas dos Mucker e acusando-os de agitadores.
25 março: falecimento do Pastor Boeber
30 abril: assassinato do menor Jorge Haubert, ex-Mucker. Os Mucker são responsabilizados e alguns presos.
20 maio: carta de Jacobina a seu primo Mathias Schroder. Em tom agressivo, dá ultimato a quem estava fora do movimento. Nomeia Lúcio Schreiner anti-cristo.
24 maio: grande culto no Ferrabrás, onde Jacobina teria anunciado o fim do mundo e decretado o extermínio de 16 famílias de colonos inimigas dos Mucker.
Maio: nascimento de Leidard, sexta e última criança de Jacobina.
Maio: celebrada com festa religiosa - Kerb - a conclusão da ampliação da casa dos Maurer. A construção é nomeada de diversas formas: um anexo para abrigar melhor as celebrações religiosas; um espaço maior para abrigar os enfermos; um templo; e mesmo um forte militar.
Maio-junho: ameaçados, vários colonos Mucker buscam abrigo na propriedade dos Maurer.
Maio: Karl von Koseritz incita os outros colonos a pegarem em armas para atacar os Mucker.
Maio-junho: os Mucker se armam. Dois são presos trazendo armas de Porto Alegre.
Junho: a violência explode na colônia. Amedrontados, os colonos passam as noites reunidos em casas de vizinhos e casas comerciais. Os Mucker agrupam-se cada vez mais na propriedade dos Maurer.
15 de junho: Chacina da família Kassel, ex-Mucker, onde morrem uma mulher e 4 crianças. Crime atribuído aos Mucker
23 junho: mandato de prisão de Jacobina e João e outros Mucker.
24 junho: Prisão de João Klein, o escrivão e presumido mentor intelectual dos Mucker.
25 junho: cinqüentenário da imigração alemã no RS.
25 de junho: a noite de fogo: 14 casas de colonos adversários dos Mucker são incendiadas em Sapiranga e Campo Bom. Nelas, 10 pessoas são assassinadas, inclusive crianças. Os crimes são atribuídos aos Mucker.
26 de Junho: 2 casas de adversários dos Mucker são queimadas em São José do Hortênsio.
27 de junho: 5 casas de colonos Mucker são incendiadas em São José do Hortênsio e Linha Nova.
Julho: a imprensa vaticina o imediato extermínio dos bruxos do Ferrabrás.
15 julho: mandado de prisão e busca de armas no Ferrabrás.
28 junho: 1o combate das forças legais contra aos Mucker. Frente à resistência dos colonos, 130 soldados recuam.
19 julho: segundo combate contra os Mucker. As forças legais e mais uma coluna de 300 colonos atacam os Mucker. A casa dos Maurer é incendiada. Entre os colonos Mucker, morrem cerca de 30 pessoas. 52 foram presas. Presos também cinco filhos de Jacobina, posteriormente entregues à adoção. Jacobina, João e seus principais colaboradores não são contados entre os mortos e presos.
20 julho: os Mucker sepultam seus mortos.
20 julho: a imprensa porto-alegrense comemora o fim do episódio Mucker.
20 junho: durante a noite, ataque ao acampamento militar. Ferido à bala o Coronel Genuíno Sampaio, comandante das forças legais, que viria a falecer no dia seguinte.
21 de julho: descobre-se que alguns Mucker estão refugiados na floresta, abrigados em cabanas.
25 de julho: reforçado por dezenas de colonos da região, as forças legais, agora com 506 homens e sob lideranças do Capitão Dantas, iniciam combate contra os Mucker na Floresta.
02 agosto: derradeiro combate contra os Mucker. Ajudadas pelo ex-Mucker Carlos Luppa - que havia sido nomeado discípulo por Jacobina, com o nome de Judas -, os soldados avançam por três lados até o esconderijo. Os colonos resistem, mas tombam após alguns minutos de intenso tiroteio e combate franco. Morrem Jacobina e mais dezesseis Mucker. 6 ou 7 fogem mato a dentro (?).
Novembro: início do julgamento dos colonos Mucker presos.
16 junho 1880: absolvição e/ou libertação dos últimos réus Mucker.
1880: os Mucker voltam à colônia, sobretudo para a região de Nova Petrópolis e Lajeado. Muitos trocam de sobrenome para não serem identificados. Com a absolvição, os 7 Mucker sobreviventes e refugiados no mato desde o último combate, voltam para casa.
23-24 outubro 1897: assassinato dos Jovens Mueller, Weber e Graebin, na Fazenda Pirajá, em Nova Petrópolis. Crime atribuído aos Mucker da região, que estariam reunidos sob liderança de Aurélia, filha do casal Maurer.
3 janeiro 1898: mais de 100 colonos da região assassinam 5 colonos Mucker na região de Nova Petrópolis e Lajeado.


* Mestre em Teologia, com pesquisa sobre Protestantismo e Missão. Doutorando em Ciências da Religião no IEPG-EST, com pesquisa no campo Teologia e Literatura. Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo e do Núcleo de Estudos e Pesquisa de Gênero.

 

 

Protestantismo em Revista, ano 02, n. 01, mai.-ago. 2003
ISSN 1678 6408
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